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Nada mais prático do que uma boa teoria PDF Imprimir E-mail
11 de Abril de 2008
Um interessante artigo da pesquisadora Esther Pillar Grossi, do Rio Grande do Sul e publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegra. Aborda, justamente, a questão da avaliação que tem sido o prato do dia na discussão entre os educadores do Brasil
fonte: Zero Hora (11.04.2008)
Esther Pillar Grossi

Todos se sensibilizam muito cada vez que a imprensa publica os baixos índices de aprendizagem do alunado em nossas escolas. Eles são regularmente alardeados depois de avaliações feitas por diversos instrumentos de diversos institutos de pesquisa. Nos últimos dias, foi a vez do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O Rio Grande do Sul ficou orgulhoso, porque entre suas escolas figuraram algumas no topo das listas classificatórias. Mas atentem para o número de respostas corretas na escola melhor classificada - 56,27 pontos. Os melhores em educação acertam apenas por volta de 50% das questões das provas. Esta tem sido a realidade das avaliações há algumas décadas. Qual pai ficaria feliz se seu filho tirasse nota apenas na metade dos acertos? Se ficasse muito satisfeito estaria concretizando eloqüentemente uma verdade popular de que "em terra de cego, quem tem um olho é rei", a qual é magnificamente completada por "e quem tem dois olhos é muito mal visto".

É assim que se sentem muitos que, mesmo no meio do fracasso generalizado das aprendizagens escolares, conseguem ensinar a todos os seus alunos em um ano letivo e em escolas públicas de periferias urbanas pobres. Eles são bem mal vistos, porque desestabilizam uma acomodação muito bem instalada de que é normal a impossibilidade de ensinar a todos. Os que conseguem estes resultados o fazem porque buscam competência científica com base em idéias solidamente elaboradas. É o que Sara Pain e Gérard Vergnaud vêm apresentar em Porto Alegre, nos próximos dias, e o que pode revolucionar o ensino, público e privado. Há muitas variáveis em torno das poucas aprendizagens, mas indiscutivelmente a ausência de consistente apoio teórico está no centro de todas elas. Imaginem se em saúde se empenhassem todos os esforços de gestão, de recursos financeiros, de mobilização pública para fazer frente a uma calamidade no seu âmbito e se deixassem de lado os avanços científicos correlacionados com o problema! Em educação está ocorrendo algo semelhante. Insiste-se em cristalizar os velhos esquemas de ensino individualizado (alunos em fila nas aulas), professor explicando na frente da classe, cobrando memorização de informações em provas ultrapassadas, quando acréscimos estupendos já estão à disposição.

As idéias de Sara Pain, associadas às de Gérard Vergnaud, são de uma potencialidade extraordinária. Sara, com a genialidade de afirmar que a ignorância tem função central para que aprendamos, põe por terra séculos do equívoco de que o erro tem que ser evitado a todo custo. De que o erro é sempre patológico e não construtivo, o que põe novos alicerces para um novíssimo jeito de organizar a cena capaz de ensinar. Em outras palavras, ensinar não é transmitir, é provocar para que cada aluno se confronte com as idéias incompletas que inteligentemente elaborou a partir da força das situações cotidianas, quando elas estão carregadas dos elementos de algo que se quer explicar. Nisto está incluído plenamente Gérard Vergnaud, com suas idéias de campos conceituais. Isto é, de que não se aprende, item por item, em uma linha simples de ordenação, mas em uma rede complexa em que os itens se entrelaçam. Num artigo de jornal é difícil sintetizar estas fecundas riquezas científicas. A sorte é que há livros sobre elas e estes dois pensadores estarão entre nós para falar disso ao vivo e a cores, mostrando-nos que não há nada mais prático do que uma boa teoria.
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