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O modelo de avaliação adotado pelo governo estadual é criticado por especialistas, que não veem motivos para comemorar avanços com a divulgação de notas tão baixas
fonte: Agora / Folha de São Paulo
Adriana Ferraz
"O Saresp é uma enganação. As pessoas que acreditam nele não entendem de educação. Não é preciso fazer contas para saber que o nível é baixo, que o povo continua ignorante", acusa o professor Vitor Paro, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).
Para o colega Ocimar Alavarse, os dados são alarmantes. "No caso de matemática, por exemplo, mesmo com o pequeno avanço, mais de três quartos dos alunos não atingiram o nível esperado pela própria secretaria", disse.
Alavarse acredita que os dados indicam que os programas do governo parecem não ter surtido efeito. "É preciso uma investigação séria dos projetos e da situação das escolas. São Paulo, com sua condição financeira, não poder ter esse número de alunos sem o conhecimento adequado", completou.
Celio da Cunha, consultor da Unesco e professor da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília), aponta como urgente a necessidade de se vistoriar a situação das escolas. "Insisto na inspeção escolar. As escolas devem ser periodicamente visitadas, como ocorre na França e na Inglaterra.
O pesquisador Ruben Klein, da Fundação Cesgranio, que aplicou o Saresp, é mais positivo. Ele afirma que "considerando um período mais longo de análise, o Estado tem melhorado em português e matemática, como o restante do país". Ele usa como base os exames federais, como a Prova Brasil.
Para o professor Vitor Paro, livre-docente em Educação e professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), em entrevista publicada no Portal Aprendiz (11.06.2008)) e reproduzida pela Associação Brasileira das Universidades Comunitárias, as atuais avaliações não medem a educação. Elas medem aquilo que a criança está com vontade de responder naquele momento. Elas são precárias e inúteis. Qualquer um que não entende de educação vai ver que a situação está ruim. Basta entrar um dia em uma escola pública”.
Paro defende uma escola que cria condições para uma aprendizagem que vai além dos conteúdos. “Educação de verdade é aquela que promove o ser humano integralmente. Não basta saber História ou Geografia. É preciso se apropriar da cultura e se fazer sujeito”, diz.
Na entrevista, Paro fala sobre a situação da escola e da educação no Brasil e defende um aprendizado mais completo – “pois o ser humano é complexo”. Ele também trata sobre a necessidade de uma escola menos burocrática e educadores que propiciam plenas condições para a formação de seres humanos.
Aprendiz – Seguidamente, exames internacionais, nacionais e regionais mostram que a qualidade da educação no Brasil é ruim. Como você avalia a qualidade e os próprios métodos de medição?
Vitor Paro - Não precisamos de mecanismos precários para medir a educação no Brasil. Essas provas não medem a educação, elas medem aquilo que a criança está com vontade de responder naquele momento. Por meio de qualquer método é possível saber que a educação no país está ruim. Qualquer um que não entende de educação vai ver que a situação está ruim. Basta entrar um dia em uma escola pública. Esses métodos são precários e inúteis.
A situação está bem pior do que imaginamos. Além daqueles que não sabem escrever, que são milhões, existem muitos outros milhões que sabem ler e escrever, mas que nunca lêem e nunca escrevem. Mas qual é a estatística que indica isso? A população que vai para a escola não lê. Mas isso não aparece nas estatísticas. O Saeb, a Prova Brasil, Saresp não avaliam a realidade do ensino. Na verdade, as escolas estão muito piores que sai na nota. E depois a culpa é do aluno.
Aprendiz - Qual é a alternativa?
Paro – Primeiro, é preciso conceituar educação. Para mim, educação é a atualização histórico-cultural do ser humano. Atualização significa eliminar a defasagem cultural que toda pessoa tem naturalmente. É pela educação que você se faz um ser humano. A educação é necessariamente democrática, porque só assim é possível ensinar. Aprende quem quer aprender. E isso é uma das coisas mais óbvias do mundo, mas também mais esquecida.
Assim, a avaliação deve encarar a educação de uma maneira muito mais completa, porque o humano é complexo. Educação de verdade é aquela que promove o ser humano integralmente. Não basta saber História ou Geografia. É preciso se apropriar da cultura e se fazer sujeito.
Aprendiz - Neste contexto, qual é o papel do educador?
O educador é o indivíduo, instituição ou grupo social, falando em educação no sentido amplo, que tem o papel de propiciar as condições para que a pessoa cresça. É aquele que propicia ao educando a atualização histórico-cultural. Quanto mais você se apropria da cultura, mais você se diferencia de um animal. Mas você só educa, se o outro quiser. O educador só pode dizer: ‘eu propicio condições para que o outro se eduque’.
Aprendiz – Como fazer os alunos desejarem o aprendizado?
Paro - É preciso levar a pessoa a querer aprender e não obrigá-la. A educação exige que eu convença você. Convencer, persuadir, levar a um pensamento, é um ato de diálogo. Eu só posso te convencer, se eu correr o risco de não convencer. E isso é democracia.
Aprendiz – O que é ser sujeito?
Paro - Sujeito é a condição de autor. Aquele que tem determinados valores e interesses e exerce a condição de autor daquilo que ele pretende fazer para alcançar seus objetivos e interesses. O homem determina valores para as coisas ao seu redor e isso nos faz humanos.
Aprendiz – Nesse sentido, as atuais políticas públicas da área da educação são suficientes?
Paro - As políticas são baseadas nas ferramentas de avaliação aplicadas atualmente. Na verdade, ninguém está querendo fazer seres humanos ou cidadãos. Caso contrário, gastaríamos mais com a educação.
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