| O quase é pouco na educação |
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| 14 de Abril de 2009 | |||||||||||
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Entrevista com Maria de Salete Silva, coordenadora do Programa de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) fonte: Gazeta do Povo - PR (14.04.2009) Tatiana Duarte
A universalização do acesso à educação é tema considerado batido entre os gestores educacionais ou até um problema já superado no Brasil. Realmente o país apresenta um alto índice de acesso à escola - 97,4% da população com idade entre 7 e 14 anos. No entanto, os demais 2,6% equivalem a um número expressivo de crianças e adolescentes: 680 mil.
Para a coordenadora do Programa de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Maria de Salete Silva, identificar e colocar essas crianças na escola é um desafio. "O direito universal é para todos. Não aceitamos 'o quase' ou praticamente", afirma. Veja os principais trechos da entrevista concedida à Gazeta do Povo:
Fala-se que o Brasil praticamente equacionou o problema do acesso à escola. Mas ainda não temos 100% das crianças matriculadas na educação básica. O que o Unicef pretende fazer para auxiliar o país a conseguir colocar todas as crianças na escola?
O primeiro passo para garantir o direito de aprender é fazer com que toda e qualquer criança tenha acesso à escola. São 680 mil crianças no Brasil inteiro que precisam ser identificadas. Precisamos saber os motivos que fazem com que elas estejam fora da escola. Podem ser crianças com deficiência, podem ter dificuldades de transporte, podem estar em regiões tão isoladas que não têm nem sequer uma escola. Identificar essas crianças é um grande desafio. Não adianta dizer que temos 99% nem 99,9%. Direito universal é para todos, ou seja, tem de ser 100%.
Há alguma pista de onde estão essas crianças? O Ministério da Educação está fazendo esse levantamento e já identificou que boa parte delas têm deficiência, e a escola não consegue incluí-las por falta de profissionais ou de experiência. Foi identificado ainda que em muitos casos a dificuldade é de transporte mesmo. Encontrar essas crianças é muito mais um desafio dos municípios brasileiros, pois essas crianças estão todas nos municípios. Se for feita pela média, temos cerca de 100 crianças fora das escolas em cada um dos municípios. Quer dizer, o Brasil tem condições de levar toda e cada uma das crianças para a escola, basta que cada cidade faça a sua parte.
Fora o acesso, temos também a questão da qualidade. Como conseguir melhorar a qualidade na educação?
A partir do acesso é preciso garantir três elementos na educação. A criança tem de permanecer na escola, aprender e concluir cada etapa da educação básica na idade certa. Para isso defendo que a educação tem de ser integral, contextualizada e individual. A educação integral envolve aumentar o tempo de aprendizagem, mas não é só isso. Ter uma escola de tempo integral não significa automaticamente ter uma educação integral, que articule saberes da comunidade, da família, que todo o tempo da criança seja de aprendizagem. Utilizo como um exemplo um ditado africano que diz que é preciso uma aldeia para educar uma criança. É isso que a gente quer, que a comunidade da criança e a cidade onde ela vive sejam espaços de aprendizagem articulados com a escola e com a política pública de educação.
Mas tudo isso acontece num contexto de violência e onde a própria família não reconhece a importância dela na construção de uma educação de qualidade. Uma pesquisa recente do movimento Todos Pela Educação mostra que menos de 1% dos brasileiros acha que a participação dos pais influencia a baixa qualidade da educação pública brasileira. Como vencer essas dificuldades?
Além de desenvolver a capacidade da escola na educação, precisamos investir no desenvolvimento de capacidades das famílias. Temos de fazer com que a família compreenda que é central no processo da educação da criança e com que essa ponte entre família e escola impulsione tanto a família na participação da escola quanto a escola se abra para a participação das famílias.
E a questão da violência?
Vivemos em ambientes de violência no mundo todo. Mas a educação não tem como objetivo diminuir a violência. A diminuição da violência melhora quando a educação das crianças passa a criar padrões de convivência. É preciso entender que conviver e sociabilidade são possibilidades de construções da escola, de espaços da comunidade e da própria família.
A qualidade da educação no Brasil está avançando nos últimos anos, mas ainda está longe das metas estabelecidas. É possível alcançá-las?
O Brasil está em processo de avanço. Não há uma curva descendente da educação, pelo contrário. Os índices de fato estão melhorando, não temos um indicador educacional nos últimos anos que esteja piorando. Quem está em processo de avanço pode chegar até o final. O que não podemos é nos conformar com o quase. Praticamente universalizado, não. Nós queremos 100% das crianças nas escolas, queremos de fato que o ensino médio seja obrigatório, seja um direito que possa ser exigido por parte das famílias e das comunidades.
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