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19 de Outubro de 2009
A educação brasileira precisa de mais supervisão e o Estado precisa saber melhor o que acontece dentro das salas de aula
fonte: Correio Popular (18.10.2009)
Fabiano Ormaneze


Essa é a opinião do economista, professor e pesquisador na área de Educação da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, Martin Carnoy que lançou, no Brasil, sob iniciativa da Fundação Lemann, o livro A Vantagem Econômica de Cuba - Por que seus Alunos vão Melhor na Escola. Na obra, publicada pela Ediouro, ele compara a realidade das escolas cubanas com as brasileiras e as chilenas.

O livro surgiu de uma inquietação do autor: por que as notas dos cubanos, que vivem em condições sociais muito piores do que os brasileiros, são maiores do que a de outros países da América Latina, em avaliações coordenadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)? Traduzindo numericamente, isso significa que mais de 50% dos alunos de Cuba conseguem resolver problemas complexos de matemática, enquanto, no Brasil, esse número não passa de 10% e, no Chile, de 15%.

Para realizar a pesquisa, Carnoy visitou uma dezena de salas de aula em cada um dos três países analisados, envolvendo escolas públicas e particulares. Elas foram filmadas e cada ação desenvolvida foi cronometrada. “No Brasil, o ensino é altamente descentralizado, com um controle muito pequeno sobre o que acontece na sala de aula”, diz. O trabalho de Carnoy, finalizado em 2003, foi focalizado em aulas de matemática. Foram filmadas 36 aulas, sempre na 3ª série do Ensino Fundamental e foram aplicadas entrevistas com professores. O pesquisador concedeu uma entrevista ao Correio, quando veio lançar em Campinas seu livro em evento organizado pelo Compromisso Campinas pela Educação (CCE), movimento que reúne empresários com o objetivo de melhorar a educação em Campinas. Acompanhe os principais trechos da conversa:

Correio Popular: O senhor fez um extenso trabalho de pesquisa e comparação entre as escolas cubanas, as brasileiras e as chilenas. O que mais lhe chamou a atenção nas escolas brasileiras?

Martin Carnoy - Muito me surpreendeu o número de professores que são contratados simplesmente por indicação. Além disso, em algumas cidades, o índice de reprovação chega a 60% e muitos educadores olham para isso como se fosse natural, achando que as crianças simplesmente não conseguem aprender. Nas escolas brasileiras, e isso ocorre da mesma forma nos colégios públicos e particulares, não são oferecidos grandes desafios aos seus alunos. É comum nivelar por baixo. Em vários colégios, constatei que muitas crianças brasileiras ainda passam horas copiando textos da lousa, exatamente, como se fazia um século atrás. Professores também não costumam preparar suas aulas, trabalham a partir do improviso. Em Cuba, mesmo os alunos das escolas de Ensino Fundamental das zonas rurais parecem aprender mais que os alunos das famílias da classe média urbana do restante da América Latina. A esse dado, junte o fato revelado por uma pesquisa recente da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que mostra que os alunos brasileiros que aparecem entre os 10% melhores sabem menos do que alguns dos piores estudantes da Finlândia. O que os finlandeses têm de melhor? Como em Cuba, eles definem suas metas a partir de um altíssimo padrão de excelência acadêmica.

A falta de metas ou o nivelamento por baixo explica os problemas brasileiros na Educação?

Penso que a razão desses problemas todos que são perceptíveis no Brasil está também na má formação do professor. Os erros começam na formação universitária dos educadores e envolve ainda a falta de valorização da profissão. É comum que os professores sejam treinados na faculdade para difundir teorias pedagógicas e não para falar com propriedade sobre os assuntos que vão ensinar. Podem esquecer tudo o que Paulo Freire disse. Eles precisam ler este autor, de quem gosto muito, como um exercício intelectual, mas as faculdades devem trabalhar mais com metodologia de ensino, ensinar a ensinar, não apenas pensar em teorias. Um bom professor de matemática, por exemplo, é aquele que domina o conteúdo e consegue passá-lo à frente, de uma forma que mantenha a atenção e o interesse dos alunos. Só que, no Brasil, as universidades parecem formar mais um teórico da matemática do que um professor. Professores também são totalmente desprestigiados. Algo que deveria ser diferente é atrair para a carreira de professor os melhores alunos do Ensino Médio. Para isso, será necessário que o Brasil copie o que já deu certo em outros lugares. Em Taiwan, por exemplo, o quadro de docentes reúne algumas das melhores cabeças. Só que, para isso, o professor ganha tanto quanto um engenheiro ou um médico. Mas também é preciso dar a esses alunos que desejam ser professores perspectivas de crescimento na carreira e de valorização. Pior do que não ter um bom salário, é não ter um horizonte profissional, não ter uma expectativa de crescimento.

O que Cuba pode ensinar ao Brasil sobre práticas educacionais?

Fiz análises com visitas a escolas. As aulas de matemática foram filmadas e, depois, analisei as diferenças entre as atividades em classe. Os alunos cubanos têm aulas das 8h às 12h30. Depois, vão almoçar. Voltam às 14h e ficam até as 16h30, quando todos vão assistir à TV por 40 minutos e, depois, vêm as aulas de artes e esportes. Essas atividades diversificadas criam um ambiente propício para o envolvimento dos estudantes. Tudo isso deixa a escola como um ambiente propício para a aprendizagem. Além disso, os cubanos têm um mesmo professor durante, pelo menos, quatro anos. No Brasil, as mudanças são frequentes. Em algumas escolas, os professores de uma mesma disciplina mudam quatro vezes durante o ano letivo. Em outras, o diretor não fica nem seis meses. O tempo para desenvolver as tarefas na sala de aula também é diferente. Em Cuba, os alunos passam mais tempo focados numa mesma atividade. O currículo também é único para todo o país. Todos aprendem a mesma coisa, no mesmo período. No Brasil, o ensino é altamente descentralizado, com um controle muito pequeno sobre o que acontece na sala de aula. A dispersão dos alunos no Brasil é muito maior. A diversidade de metodologias utilizada não garante o envolvimento da turma.

O senhor concorda com a estratégia do governo do Estado de São Paulo em oferecer aumento de salário à permanência do professor na escola e na obtenção de bons resultados em avaliações oficiais, como o Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo)?

Minha sugestão ao governo é que as aulas sejam filmadas, como são no Chile. Depois, professores de outras escolas avaliariam as imagens, apontando onde os colegas acertaram e onde poderiam melhorar. Professores podem ir bem nos concursos que os contrataram, mas péssimos para ensinar.

Mas e os bônus em dinheiro? Eles devem existir?

Não há boas evidências de que esse sistema de estímulo funcione. O modelo usado em São Paulo, em que todos os professores ganham mais dinheiro se a escola atingir a meta, pode ser bom. Isso já foi tentado na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, no final da década de 80. Deu certo no começo, mas depois estagnou. Os professores atingiram um limite e não conseguiram avançar em qualidade, tanto que os bônus foram abolidos. São Paulo não está fazendo o melhor, até por uma razão metodológica: é feita uma medida de quanto uma segunda série aprendeu neste ano e, no ano que vem, farão a mesma análise com os alunos que estarão na segunda série. Só que os alunos a serem avaliados são outros, o professor foi outro. Saber como os professores dão suas aulas é mais importante.

Então um controle acirrado sobre os professores pode ser a receita para melhorar a educação?

Há muitas escolas brasileiras em que os diretores não fazem nada, nunca entraram numa sala de aula para acompanhar o desempenho de um professor. Em Cuba, diretores assistem às aulas. Nos primeiros três anos de serviço de um professor, por exemplo, eles entram ao menos duas vezes por semana na sala para acompanhar o desempenho do professor que está começando. Eles se tornam uma espécie de tutor, que asseguraram que a instrução siga o método e o nível requeridos pelos padrões estabelecidos.

Não podemos esquecer que Cuba vive sob uma ditadura e que esse controle está muito ligado a esse tipo de regime político. Não dá para melhorar a educação dando às escolas e ao professor mais autonomia?

Sempre digo que a melhor escola é a que tem professores com democracia. Mas temos de chegar a um acordo sobre o que queremos para os nossos alunos. Em Manhatan, um supervisor que queria melhor a qualidade da educação disse aos professores: “Este é o programa para ser seguido. Vocês querem implantá-lo comigo? Todos terão uma semana para pensar. Se não estiverem de acordo, estão livres para sair”. Acredito que, no início, não há outro caminho para acertar a situação: é preciso um certo grau de autoritarismo, alguém tem de dizer o que é para ser feito. E essa pessoa precisa estudar, conhecer o que é a Educação, saber o que dá certo ou não. Depois disso, certamente, haverá democracia. Os diretores brasileiros precisam se preocupar mais com os direitos das crianças.

O senhor diria que o modelo de Cuba é perfeito?

Não. Há uma falta de criatividade muito grande nas escolas: não se pode questionar nada, ser contra o governo, mas as crianças estão aprendendo o que foi decidido que elas devem aprender. São bons, leem bem, aprendem muito, não importa a escola onde estudam.

As frases

“Nas escolas brasileiras, mesmo nos colégios particulares, não são oferecidos grandes desafios aos seus alunos.”

“Os cubanos têm um mesmo professor durante, pelo menos, quatro anos. No Brasil, as mudanças são frequentes.”

“Professores também não costumam preparar suas aulas, trabalham a partir do improviso.”
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Carla Darlene  - Brasileiros   |14-12-2009
Nossos alunos não são frutos de uma ditadura. Pelo contrário, são frutos de desviada democracia
(faço o que eu quero). Nossos alunos não participam das atividades que proporcionamos, que é o
que os leva à aprendizagem. Talvez em Cuba, eles estejam acostumados a fazer o que lhes é imposto,
e, provavelmente, não se recusam a participar das atividades propostas. Como vou ensinar a ler, se
o meu aluno se recusa a ler? Como vou despertar sua criticidade, se ele se recusa a pensar? Nossos
alunos conversam o tempo todo e não há nada que os faça mudar. E na faculdade mudam? Nem pensar.
Saem da sala. Usam ferramentas tecnológicas para se divertirem com joguinhos durante as aulas. Não
assistem a palestras. Nem a reprovação os ameaça, todos passam, nem que seja por conselho de
classe... Para que estudar?

Conclusão: Mais edificações cairão sobre nossas cabeças,
morreremos nas mãos de médicos, seremos mal atendidos por funcionários públicos... e
continuaremos tendo governantes corruptos.
João Carlos  - Resposta a Carla   |14-12-2009
Querida Carla,

Acho que o mais importante nesta pesquisa, não é a comparação em si.
Mas, a
GRITANTE REVELAÇÃO de que algo precisa ser feito e URGENTE, com a educa(sem)ação
brasileira.
Não acredito que nossas crianças seja diferentes, das cubanas. E pq não tem o mesmo
desempenho????
Concordo plenamente com vc, com relação a falta de interesse do nosso alunado, mas
que os iniciou na vida escolar?
CONTINUA...
João Carlos   |14-12-2009
CONTINUAÇÃO

Há muito o que se debater, e para que exista o debate e possamos avançar, (pelo
menos um pouco) 1º devemos parar de nos confundir com o problema para deixar que o debate
aconteça.
Percebo que qq critica que se faça sobre educação, nós professores já saímos nos
defendendo e atirando pra todo lado.
Vamos pensar mais no problema MESMO e esquecer as politicas
envolvidas.

"HASTA LA APRENDIZAJE... SIEMPRE"

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