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Home Educação é Cultura Como os índios estão usando a tecnologia para preservar o conhecimento de seu povo
Como os índios estão usando a tecnologia para preservar o conhecimento de seu povo PDF Imprimir E-mail
24 de Novembro de 2009

Índios Xavante, da aldeia Pimentel Barbosa, no norte de Mato Grosso, utilizarão a tecnologia como importante aliada para preservar e disseminar o conhecimento tradicional de seu povo

fonte: Nós da Comunicação (24.11.2009)
Elisa Andries, Informe ENSP



Em parceria inédita, a ENSP/Fiocruz e o Museu do Índio/Funai estão treinando jovens Xavante para utilizar câmeras de vídeo e de fotografia digitais e programa de publicação na internet para registrar em um sítio eletrônico a cultura indígena – alimentação, música, dança, confecção de indumentárias etc. – a partir de um centro de documentação, que será inaugurado na aldeia em 2010, com computadores e outros equipamentos digitais. Os índios ficarão duas semanas no Rio de Janeiro em treinamento, acompanhados pelo cacique Tsuptó Buprewên Wa'iri Xavante e por dois dos representantes mais velhos da aldeia.

A aldeia Pimentel Barbosa está localizada na região norte do estado de Mato Grosso, tem uma população de 380 pessoas e é a aldeia-mãe das oito que existem na reserva.

Segundo o cacique, os índios ainda preservam o hábito de as mulheres fazerem a comida enquanto o marido sai para caçar. As mulheres da aldeia também têm outras atividades, como a coleta, enquanto os homens caçam e pescam. As crianças, por sua vez, têm aulas na língua nativa, em primeiro lugar, e também de português.

“Acreditamos que as crianças devam conhecer suas origens, sua identidade e, só depois, aprender o português. Estamos tomando consciência de que é preciso preservar as tradições e os costumes do nosso povo. Mas isso também serve para todas as etnias. O espírito da força e da criação está em tudo isso. Se um povo não tiver espírito e não preservar suas tradições, pode por tudo a perder. Quem não tiver tudo isso irá desaparecer”, disse Buprewên Wa'iri Xavante.

 

Foco também na saúde

Na ENSP, os índios foram recebidos pela vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Escola, Margareth Portela, ao lado do pesquisador visitante James Robert Welch, coordenador do projeto, e dos pesquisadores titulares Ricardo Ventura Santos e Carlos Coimbra, que lideram estudos sobre saúde indígena na instituição, além de quatro estudantes dos cursos de pós-graduação da Escola que participam de projetos na aldeia.

“As questões de saúde indígena são muito importantes para a Escola. O grupo de pesquisa tem demonstrado vigor e dinamismo, um exemplo para os demais. Nossa Escola trabalha com grande diversidade de temas e, além de nos preocupar com a excelência científica, também nos preocupamos em dar respostas à sociedade brasileira”, disse a vice-diretora.

Barbosa também falou sobre a conscientização que os pesquisadores têm feito junto ao povo Xavante, para o resgate das tradições alimentares. “Por causa do trabalho de pesquisa, estamos entendendo melhor que precisamos valorizar o conhecimento do nosso povo e voltar a nos alimentar como nos alimentávamos antes de ter mais contato com o homem branco. Hoje, é comum encontrarmos um Xavante gordo, com problemas de colesterol alto e diabetes, o que não acontecia com nossos antepassados. Antes, nos alimentávamos de caça, pesca, frutas e verduras. Agora, comemos muito açúcar, sal e não saímos mais para caçar e pescar como no passado, o que era uma forma de nos exercitar. Por causa do trabalho dos pesquisadores, temos discutido como é importante resgatar as tradições para que nosso povo tenha saúde de novo”, disse Barbosa.

Ricardo Ventura Santos, pesquisador da ENSP, falou sobre a comunidade de Pimentel Barbosa e do trabalho que vem sendo realizado desde 1990 na aldeia. “Durante todo esse tempo, acompanhamos as transformações da aldeia e cooperamos com o que foi possível, sempre atentando para as prioridades de pesquisa colocadas pelos próprios Xavante”, disse.

Carlos Coimbra, outro pesquisador da Escola envolvido com a temática da saúde indígena, esteve recentemente na aldeia para informar sobre os primeiros resultados da pesquisa que vem realizando, há cerca de três anos, sobre os impactos das doenças crônicas naquela comunidade indígena. O objetivo da pesquisa é realizar, pela primeira vez no Brasil, o monitoramento da evolução das doenças crônicas, com ênfase em obesidade, pressão arterial e diabetes mellitus. "Não fazemos um trabalho centralizando apenas nos aspectos biomédicos e de acompanhamento da evolução do processo em si. Estamos buscando, de forma integrada com a comunidade, associar a investigação à participação ativa dos jovens no resgate da alimentação tradicional, buscando a reeducação alimentar", comentou Coimbra. Os resultados do estudo serão divulgados até o fim do ano.

O trabalho dos pesquisadores com a aldeia já existe há quase 20 anos. Uma síntese das pesquisas realizadas foi divulgada no livro “Os Xavante em Transição: Saúde, Ecologia e Bioantropologia no Brasil Central” (Editora da Universidade de Michigan, 2002). Esse novo projeto se agrega a outras linhas de pesquisa já realizadas, contando sempre com a participação dos índios. Segundo Carlos Coimbra, a proposta de estudo de obesidade e diabetes surgiu a partir de uma preocupação expressa dentro da própria aldeia, uma vez que o problema já vem sendo relatado pelos índios há algum tempo.

 
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