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''Não se pode compreender Obama sem a Internet'', afirma Manuel Castells PDF Imprimir E-mail
25 de Novembro de 2009

O catedrático, que vive viajando entre Espanha, EUA e França, analisa, em seu último livro, como a Internet tem mudado os paradigmas da relação entre comunicação e poder

fonte: IHU Online (25.11.2009)
Juan Cruz
tradução de Vanessa Alves

A reportagem e a entrevista é de Juan Cruz e publicada pelo jornal El País, 23-11-2009.

Sobre Manuel Castells (Hellín, 1942), professor na França, nos Estados Unidos e na Espanha, seu colega Emilio Lamo de Espinosa disse que é "o sociólogo espanhol mais importante depois de Ortega". Lamo ressaltou a sua importância, apresentando um companheiro de ambos, Edgar Morin, no Fórum da Complutense. E foi neste mesmo âmbito onde Castells falou, há uma semana, para apresentar o último resultado de seu pensamento sobre a nova era que estamos vivendo, a era da Internet, da qual ele é um profeta. Titula-se Comunicación y poder (Alianza Editorial) e tem mais de 600 páginas. Sobre seu conteúdo, sobretudo de Internet, falamos com ele.

Eis a entrevista.

A Internet nos cura da solidão?

Sim. Não a elimina. Se as pessoas se encontram sozinhas, se encontrarão menos sozinhas com a Internet. O uso da Internet favorece a sociabilidade, diminui a sensação de isolamento.

E o abuso não faz com que as pessoas se esqueçam da rua?

As pessoas que utilizam a Internet têm mais amigos, saem com mais frequencia, participam mais politicamente, têm maiores interesses e atividades culturais... A Internet expande o mundo

E o que ela proporcionou a você?

A capacidade de pesquisar como nunca havia podido. Se sabemos onde pesquisar, que é a grande condição, e o que procuramos, podemos estar sempre atualizados. Minha filha mora em Genebra, a filha da minha mulher mora na Sibéria, tenho dois netos em Genebra, outra neta está em Los Angeles, minha mulher e eu viajamos muito. E sempre estamos em contato. Não somente por e-mail, falamos pelo Skype, grátis.

De que qualidade é essa comunicação que construímos?

É muito mais forte porque podemos praticá-la muito mais intensamente. O que não exclui que, se minha filha vivesse na minha cidade, a veria pessoalmente, claro. Mas também o faria pela Internet. A comunicação mais ampla é, claro, a interpessoal, cara a cara, porque trata-se de uma comunicação onde não só intervêm as palavras. Mas não se trata de opor uma à outra, trata-se de uni-las.

Disseram-lhe hoje que tínhamos que aprender com os norte-americanos. O quê?

Não acredito que tenhamos que aprender com os norte-americanos. As taxas de difusão da Internet no norte da Europa são mais altas que nos Estados Unidos. Ainda que o maior pacote de internautas - mais de 300 milhões - é constituído pelos chineses. E a linguagem da Internet não é o inglês, as websites nesse idioma são 28%. Vivemos com a Internet, não na Internet. Utilizamo-la para trabalhar, para nos relacionarmos, para ler os jornais...

Seu assunto, seu livro. Como está utilizando o poder da Internet? Para que lhe serve?

Os Estados têm medo dela, porque perderam o controle da comunicação e da informação sobre o que o poder se baseou ao longo da história. A Internet é extremamente útil para a educação, para os serviços públicos, para a economia. E não se pode ter um pouquinho da Internet, tem que se ter Internet na plenitude de sua capacidade autônoma de comunicação. Não se pode interferir na Internet. Pode-se fechar um servidor. E se abre outro. O Estado vigia a Internet, entra na privacidade das pessoas. Mas isso sempre o fez, ainda que sem uma ordem judicial, se o Estado quer, ele nos vigia. Todos os Governos de todo o mundo o fazem, podem fazê-lo. A novidade é que nós podemos vigiar a eles.

Você diz que poder é muito mais que comunicação, e comunicação é muito mais que poder. Choque de ideias.

Exato. A Internet incide nas relações de poder, incrementando o poder dos que tinham menos poder. Mas isso não quer dizer que os que sempre tiveram o poder deixem de ter. Ainda o tem, mas menos. E tentam delimitar os espaços de liberdade. Nos EUA, por exemplo, buscam criar uma Internet não neutra, maior banda larga a quem pagar mais. Outro método é tentar censurar, fechar servidores. Mas sempre se pode desviar o tráfego por outros circuitos. E outro método seria introduzir legislações que servem para uma coisa - pornografia infantil, controle de pirataria... - mas podem usar para outra... Este tipo de legislações tem como objetivo último o controle da Rede.

Será mais difícil a manipulação?

Num mundo dominado pela televisão, dependendo, pode-se receber imagens que quase todas serão no sentido de ativar esse medo. Num mundo livre de Internet, pode-se ter suficientes imagens de outro sentido para ativar seus outros elementos metafóricos de diminuir o medo e aumentar a confiança. Isso é o que Obama ativou com muita habilidade. Não se pode compreender Obama sem os recursos da Internet. Não foi só pela Internet, mas, sem Internet, Obama não teria sido eleito.

Dizia que a Internet é como a eletricidade, não se pode viver sem ela. Como o ar, portanto. O ar varrerá o papel, também?

Infelizmente, não. Infelizmente, porque estamos desmatando o planeta.

Conversamos para EL PAÍS e para elpais.com. Quando será só para elpais.com?

Nunca faço predições porque sempre me engano. Mas acredito que acontecerá só no dia em que a edição de papel seja um produto de luxo que só se permitirá à elite, que aprecia um prazer que eu compartilho, o rangido do papel junto ao café da manhã. Quando tiver que pagar 10 euros pelo jornal, a maior parte dos leitores será da web.

A que distância estamos desse futuro?

Num momento decisivo porque temos uma crise econômica muito profunda; nem as empresas têm recursos nem as pessoas podem se permitir comprar em papel o que podem fazer na web. A ideia é, como já fez o EL PAÍS, fechar a web e cobrar. No caso do seu jornal, tiveram que mudar e fazer outro modelo, baseado na publicidade, nos serviços... Estamos num ponto de aceleração em direção ao jornalismo na web.

Você diz, em seu livro, que somos anjos e demônios. E se fosse o advogado do diabo do papel, o que diria que perderíamos se desaparecesse o papel?

A nostalgia, porque para as crianças de cinco anos, não se poderá convencê-las de que já não existe uma coisa que fundamentalmente serve para rabiscar.

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