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Semi-árido mais produtivo PDF Imprimir E-mail
05 de Abril de 2009

Em Crateús (CE) alunos cultivam mudas nativas e horta que, além de produzir alimentos, combatem o risco de desertificação

fonte: História Vermelha / Carta Capital (05.04.2009)
André Oliveira

 

 
 

Na zona rural de Crateús, município de 72 mil habitantes no sertão do Ceará, a Escola de Cidadania de Santa Rosa está aproximando as dez comunidades e os mais de 200 alunos que atende de um problema grave do Semi-árido brasileiro: a desertificação. Para evitar que o solo da região se degrade, transformando-se em deserto, fenômeno causado pelos desmatamentos e pelas queimadas irregulares, a escola conscientiza seus alunos para a urgente mudança de hábitos na região.

Desde 2005, depois de participar de um concurso da prefeitura chamado Jornais Escolares Contra a Desertificação, a escola fez do meio ambiente o tema central de suas ações. Naquele ano foram produzidos textos e cartazes, publicados no jornal escolar Sr. Notícia, que alertavam para os riscos de um antigo hábito da população: o desmatamento e a queimada.

Três anos depois, o projeto da Santa Rosa cresceu e foi um dos dez vencedores do concurso Minha Comunidade Sustentável, promovido pela revista Carta na Escola e pela organização não-governamental Ação Educativa. Com o prêmio de 5 mil reais, recebido em 2008, este ano começa com perspectivas de crescimento para o projeto Produção de Mudas Nativas e Frutíferas: uma alternativa sustentável para o Semi-árido.

Início e parcerias

O ex-diretor da escola e atual secretário de Meio-Ambiente do município, Wanderley Marques de Sousa, conta que a conscientização ambiental sempre foi uma preocupação da escola, que desenvolveu algumas ações voltadas para as questões ambientais, como a distribuição de mudas de plantas nativas na região. “Animados com o bom desempenho da escola no concurso da prefeitura, passamos a levar os alunos para visitar a Reserva Particular do Patrimônio Natural da Serra das Almas”, diz Sousa.

A reserva faz parte da Associação Caatinga, uma entidade não-governamental que existe desde 1998 e tem como objetivo a criação e gestão de áreas protegidas, o fomento de pesquisas, a educação e a capacitação das comunidades locais. A associação passaria, a partir desse dia, a ser um grande aliado do trabalho desenvolvido pela escola. Além das visitas à Serra das Almas, são oferecidas palestras que discutem temas polêmicos, como a queimada, o lixo e o uso consciente da terra.

Com as visitas à reserva, a escola resolveu fazer um projeto que seria, futuramente, o ganhador do prêmio da Minha Comunidade Sustentável. “Passamos a desenvolver um trabalho com os alunos chamado Convivendo com o Semi-árido, construímos uma horta e fizemos um viveiro de mudas que seriam distribuídas para a comunidade”, conta o ex-diretor. Com o dinheiro do prêmio Minha Comunidade Sustentável, a escola de Crateús está ampliando o projeto, que até ganhou um novo nome: Produção de Mudas Nativas e Frutíferas: uma alternativa sustentável para o Semi-árido.

Ações previstas

A horta baseia-se na policultura e mostra que, ao contrário da produção da monocultura de alimentos, não leva o solo à exaustão e não exige desmatamentos nem queimadas. “Na horta serão produzidos alimentos como cebola, coentro, pimentão, berinjela, alface, beterraba e quiabo, além de plantas medicinais, como capim santo, erva cidreira, hortelã, folha santa e mastruz”, destaca Sousa. “A intenção é que os alunos aprendam fazendo, para depois poderem reproduzir a experiência em suas casas.” A horta, além de apontar para outra forma de produção, busca mudar os hábitos alimentares dos alunos, já que todos os alimentos produzidos serão utilizados na cozinha da escola. Na horta, cada planta tem sua função e a variedade garante que os nutrientes do solo não acabem.

“No viveiro já produzimos, mais ou menos, mil mudas, entre frutíferas e nativas”, comemora o ex-diretor. As mudas foram doadas pela Associação Caatinga e terão destinos diferentes. Uma parte será doada para a comunidade local e a outra constituirá um pequeno parque ao lado da escola. “Com as premiações, o projeto ganhou grande destaque na comunidade e um morador doou um terreno para que seja feito um parque com as mudas nativas.”

Participação dos alunos

Do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, um professor foi designado para levar os alunos até a horta e desenvolver atividades como o plantio das mudas. Do 6º ao 7º foi criada uma nova disciplina em todas as escolas do município, chamada Educação Ambiental. “Nesses anos, o trabalho voltado para a conscientização ambiental será mais intenso”, promete Sousa. No 8º e no 9º ano, o trabalho será interdisciplinar. Na aula de Matemática, por exemplo, os alunos terão de tirar as medidas do terreno que servirá de parque e calcular estimativas de produção da horta.

O último passo será voltado à questão da água. Toda a água usada na cozinha passará por um processo de filtragem e será reutilizada para regar a horta e as mudas. “Passamos, em média, por quatro meses de chuva ao ano. O resto é época de estiagem. Por isso nenhuma gota d’água deve ser desperdiçada”, conclui Sousa.

A criação da horta, a manutenção de um pequeno parque com mudas nativas e as palestras que são oferecidas pela Associação Caatinga são formas de atingir não só os alunos, mas toda a comunidade. Trabalhando com esses princípios, a escola pretende criar um ambiente de desenvolvimento sustentável na região de Crateús e barrar a degradação da Caatinga.

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