| RJ: um banquinho, um violão... |
Escola em Pedra de Guaratiba alfabetiza alunos mais rápido com músicas de Tom e Viniciusfonte: Jornal do Brasil (30.11.2008) Bruna Talarico As 30 crianças cantam baixinho. É que, ensina a professora, a bossa nova começou em apartamentos de paredes finas da Zona Sul, onde a música incomodava os vizinhos. Hoje, 50 anos depois dos encontros às escondidas, as canções de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto ensinam a ler e escrever alunos de 6 e 7 anos de uma escola municipal de um bairro de classe baixa da Zona Oeste da cidade. Lá, a bossa nova afastou os pequenos do funk, foi ensinada aos pais e levou mais que perspectiva para onde a informalidade é destino certo de grande parte da população. As casas muito engraçadas - sem teto e sem nada - cantadas por Vinicius são erguidas pelos pais dos alunos da Escola Municipal Professora Elisa Joaquina Daltro Peixoto, em Pedra de Guaratiba, a 60 quilômetros do Centro. A maioria das famílias, migrante da Paraíba, trabalha nas obras da comunidade do Piraquê, vizinha da escola, e oferece à criançada vocabulário e cultura limitados. Mas, desde o início do ano, quando a professora Andrea da Silva Milheiros começou a alfabetizar os alunos usando a separação das sílabas das letras mais famosas da bossa nova, o Samba do avião revelou a letra a; A bicicleta ilustrou o b; e A casa introduziu o c. Fora dali, o cotidiano da meninada deixou de lado a mulher melancia para incorporar a Garota de Ipanema. A professora Andrea da Silva Milheiros, 31 anos, mostra, com um sorriso aberto, os cartazes presos com fita adesiva nas paredes e janelas da sala de aula da turma 1001. Neles, as canções de Toquinho, Vinícius de Moraes e Tom Jobim são desmembradas em sílabas que, reorganizadas, dão origens a novas expressões e significados. - Comecei a mostrar as fotos do Rio de Janeiro na época do aniversário da cidade e, depois, trouxe um pouco de música. Pesquisei a história da bossa-nova e eles foram ficando interessados - lembra Andrea. - Os alunos passaram a falar melhor, coordenar as orações e até incorporaram palavras ao vocabulário. Alguns ensinam as músicas em casa para os pais. - Eu esqueci um pouco do funk - conta Alex da Conceição, 7 anos. - E quando ando de bicicleta eu até canto a música (A bicicleta, de Toquinho). O companheiro Daniel Mesquita, da mesma idade, complementa, sem esperar: - O importante não é que a gente sabe cantar, é que a gente sabe as palavras. Já sonhei com as aulas, e ensaio as músicas em casa. Ao contrário dos tempos dos apartamentos de paredes finas, na sala da 1001 tudo é alvorço. E felicidade. Os meninos e meninas têm sempre uma resposta e a impetuosidade de quem já começa a entender as palavras. Tudo por conta das aulas cheias de bossa da tia Andrea. Da Garota de Ipanema, sabem que o corpo dourado não é de tinta. - Dourado é bronzeado, tia - dispara uma aluna à reportagem do JB. Mais adiante, outro pequeno interrompe, sem cerimônia. - São pessoas que trabalham - referindo-se aos executivos que procuram a bicicleta na letra de Toquinho. Já a casa feita com muito esmero, todos sabem, agora, que é aquela feita com vontade. - E amor também, é quando a gente quer muito - grita a turma, quase em coro. Assim, os alunos terminaram em em um ano a alfabetização, que levaria três pelo sistema de ensino da rede municipal. - Eles se envolveram - comemora Marina Gonçalves, diretora da escola. - Tudo isso mostra que deu certo, e tudo o que dá certo é sempre uma soma.
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Escola em Pedra de Guaratiba alfabetiza alunos mais rápido com músicas de Tom e Vinicius