| Língua Portuguesa – mudar para unificar? |
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Algumas coisas que fazem parte do cotidiano de pessoas comuns, como profissionais, estudantes, donas de casa, estão em constante mudança fonte: Nota 10 (s/d) Carla J.C. Wansaucheki e Sirlene Barros Kolb Carla Uma rua que muda de sentido, um novo programa de computador para o trabalho, um novo produto a disposição no mercado, um amigo que chega de longe... Essas coisas não surpreendem muito. Basta as pessoas adequarem-se, basta acostumarem-se com a mudança, pois geralmente não há escolha, uma vez que não participam da decisão da mudança, somente passam a fazer de outro jeito aquilo que já tinham como padrão de sua ação. No entanto, essas mudanças são notáveis, causam um certo transtorno ou estranheza até virarem lugar comum. Com o idioma não é bem assim. Apesar de nada mudar tanto quanto a língua falada, pois a comunicação pela fala é quase que instantânea e, cotidianamente, o falante altera algo em sua linguagem, essas alterações são praticamente imperceptíveis. O falante, diariamente, assimila nova palavra, dá sentido novo a termos já conhecidos e com significado cristalizado em sua mente, apropria-se de “pedaços” de palavras para criar novas, logicamente. A partir de um processo gramatical, “inventa” uma palavra que não existia, conforme a necessidade de mudança do mundo a sua volta. Essas alterações da língua falada não são passíveis de controle, nem existe a possibilidade de contê-las. O homem evolui e se aprimora com o passar do tempo - seja a longo, curto ou médio prazo – e a língua acompanha seu ritmo sem perdas, ao contrário, com o privilégio de servir às necessidades comunicativas, das mais elementares às mais elaboradas. No próximo ano, entrará em vigor a nova norma ortográfica da língua portuguesa. Muito se falou, muito se discutiu a respeito, houve prós e contras, houve assombro e indignação, mas, diante da lei não há ressalvas, é necessário cumprimento das novas regras. Afinal, o que vai mudar? É a pergunta que todos que habitam a esfera escolar têm feito. Há um tempo de transição para que se possa adequar o que já se sabia a um novo conhecimento? O interessante é que as mudanças são mínimas, porém muito marcantes e a consequência delas – consequência escrita já de acordo com a nova regra - será sentida por muitas décadas. Mas é preciso, antes de responder a essas questões tão pertinentes, fazer uma outra abordagem do assunto, para esclarecimento de alguns equívocos que têm surgido no meio escolar. Primeiramente, é necessário ter-se em mente que a língua portuguesa não está mudando, somente a ortografia de algumas palavras da língua é que serão alteradas. É uma afirmação errônea, portanto, dizer que a língua mudou. A mudança de um idioma não acontece por decisão de alguém, pois, como se afirmou, a fala acompanha a evolução do homem; logo, evolui e se aprimora naturalmente. A língua portuguesa é falada por aproximadamente 230 milhões de pessoas, é a quinta língua mais falada no mundo e um dos motivos das alterações ortográficas é que esse idioma é o único com mais de uma ortografia oficial. Isso significa que no continente europeu há uma regra ortográfica diferente da regra do continente africano e diferente ainda da regra do continente americano. O motivo dessas diferenças está na própria expansão do idioma ao longo de sua existência. O povo português esteve em tantos e diferentes territórios e a tantos e diferentes povos impôs sua língua que o que restou da combinação de línguas autóctones com o português foram diversos sotaques e ritmos para um novo português que, em cada território, teve respeitados os seus falantes e foi fiel a eles no registro escrito das palavras. Ouvir um português oriundo de Portugal, um habitante de Macau, um moçambicano, um brasileiro, ou ainda um timorense é uma experiência e tanto. Não somente a musicalidade da fala é encantadora como as diferenças semânticas entre os falantes são surpreendentes. Palavras que não se usam mais no Brasil, que são vistas como arcaicas e antigas aqui, são populares e corriqueiras nas outras sociedades do idioma português. Outro fato curioso quando se está diante de “portugueses estrangeiros” é a admiração que esses povos têm pelo português brasileiro, visto que, apesar do tamanho continental do Brasil e dos regionalismos na fala, não há diferenças problemáticas no falar do brasileiro. O que não é o caso de muitos países africanos, por exemplo, que têm o português como língua oficial, mas ao mesmo tempo chegam a ter até dezoito outras línguas autóctones que convivem com a língua oficial. Isso acarreta em imprensa escrita e falada publicada em dois idiomas, no mínimo. Em uma mesma família, há gerações que conversam em línguas diferentes e se entendem sem dificuldades. Em Moçambique, por exemplo, embora oficial, a língua portuguesa é muito pouco usada, restringindo-se a situações formais, oficiais. E há muitas variações diferentes, com predomínio das línguas bantu (africanas). Para os moçambicanos, o português é a língua do prestígio e da mobilidade social, falada mais pelos homens e nas zonas urbanas. Dessa forma, como nem todos têm acesso à aquisição da língua, esta acaba se convertendo em fator de exclusão social. Para o professor Gregório Firmino (UEM - Universidade Eduardo Mondlane), um dos principais especialistas moçambicanos no assunto, o português também pode afastar o moçambicano da vida nacional. Esse fato tem levado professores e lingüistas a questionarem a unificação do português. Já em Timor-Leste, falar a língua portuguesa é símbolo de resistência, de unidade, de força nacional, uma vez que o país ficou sob o domínio da Indonésia durante 25 anos, tempo de grande violência e repressão à cultura local. Nesse período, chamado de ‘destimorização’, a língua portuguesa foi proibida, a fim de se impor a língua indonésia. Muitas mortes, livros enterrados numa tentativa de se preservar os valores culturais. Portanto, é nesse contexto que os timorenses apoiaram e aprovaram, ao lado do tétum, o português como língua oficial. Uma situação bem diferente observa-se em Macau, cuja primeira língua oficial é o mandarim. Ali, a língua portuguesa é só uma variante local, muito diferente, inclusive, do português europeu. No entanto, nos últimos anos, cada vez mais pessoas, especialmente da China Continental, têm mostrado interesse em aprender a língua lusófona. O principal motivo é econômico: atualmente a China é um dos países que mais tem relações comerciais com o Brasil, atrás apenas dos EUA e da Argentina. Comercialmente é positivo ter-se um idioma que, se unificado, transite por todas as sociedades que têm essa língua como oficial sem necessidade de uma “tradução” mínima; porém, a possibilidade de desconsideração das diferenças culturais desses povos, se feita essa unificação, fica óbvia. Retomando o principal questionamento deste artigo, “o que muda na língua portuguesa no próximo ano?”, pode-se responder que, para os brasileiros, pouquíssimo! A mudança ocorre em somente 0,5% do vocabulário e contempla a inclusão das letras K, W, Y, a abolição do uso do trema (que na verdade já acontecia há alguns anos por grande parte da população brasileira), da maioria dos acentos diferenciais, dos acentos nos ditongos abertos éi e ói em palavras paroxítonas e alterações no uso do hífen (acrescentado em umas palavras e retirado de outras). Se for levado em conta que a língua portuguesa tem um léxico de aproximadamente 356 mil unidades, as mudanças não acarretarão grandes problemas. Já em Portugal, a mudança será mais significativa, pois abarcará aproximadamente 1,6% do vocabulário. A problematização levantada pelos estudiosos que se posicionaram contra a reforma ortográfica versa no âmbito dos motivos da mudança. Quando se passar a escrever FATO em Portugal e não mais FACTO, como se explicar a permanência da palavra factual, ou factóide, palavras derivadas da etimologicamente primitiva FACTO, tanto no Brasil como em Portugal? Os que se posicionaram a favor explicam que já se convive com esse tipo de fenômeno do idioma há séculos e que a própria etimologia das palavras explica e justifica a mudança como uma alteração pertinente a um novo uso por parte do falante. Os brasileiros de modo geral, em especial os estudantes, reclamam do abismo existente entre a variedade lingüística falada e a escrita. E, de fato, as regras estudadas exaustivamente nos bancos escolares não correspondem, na grande maioria das vezes, à prática coloquial cotidiana. Porém, se isso serve de consolo, esse fenômeno não é exclusividade do Brasil. Em todo território onde, com a colonização, a língua é imposta, esta sempre sofre o processo de nativização, ou seja, o falante sempre incorpora ao novo idioma elementos da sua língua materna. Mudanças sempre ocorrem, seja no léxico, na estrutura, na fonética, nos neologismos. E, assim como no Brasil, em outros países lusófonos também existe a polêmica: as mudanças se constituem em degeneração da língua original ou em simples evolução natural, um reflexo cultural? Refletindo sobre as diversas opiniões, pode-se afirmar que toda mudança causa um certo desconforto inicial e é comum a resistência ao novo, por mais que seja adequado e necessário. É preciso uma reorganização individual para se receber a novidade. Todos que lêem e escrevem em português terão por algum tempo - não muito curto, pode-se afirmar – que consultar a nova regra quando se depararem com as palavras que foram alteradas. Porém, as futuras gerações que receberão a palavra nova, não como nova, mas somente como uma palavra de seu idioma, não terão o menor problema. Basta, para se comprovar isso, abrir um livro de edição da década de 50. Lá o leitor encontrará muitos vocábulos escritos de forma estranha, com acentos e letras que não se usam mais. Diante desse tipo de texto é quase automática a classificação “livro velho”, o que não é pejorativo, mas soa como algo que precisa ser revisto, atualizado para ficar melhor. De qualquer maneira, um idioma serve ao povo que o fala. Chama-se língua materna a língua que se ouve desde que se está no útero materno e que é registrada na memória auditiva e depois visual dos escritores/leitores. A língua é um patrimônio da população, uma de suas riquezas e é fator determinante na formação da cultura de uma nação. Portanto, como ‘unificar’? Valorização da língua não significa unificação, homogeneidade, pois é justamente nas diferenças que está a beleza. As línguas são um produto. Cada país falante da língua portuguesa tem inevitáveis influências da cultura local: no Brasil, misturaram-se elementos tupis, italianos, holandeses, franceses, japoneses, africanos... E o resultado foi uma língua miscigenada, e por isso mesmo rica e fértil. Sendo assim, é necessário não confundir acordo ortográfico com unificação da língua portuguesa, pois isso não seria possível, e muito menos desejável. (*) Carla J.C. Wansaucheki é formada em Letras pela PUCPR e e Sirlene Barros Kolb é formada em Letras pela UFPR.
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